O Cataratas Moto Fest e as Peripécias em Terras do Bispo Lugo

Quando em 2008 participei do 2º Moto Pato, em Pato Branco (PR), alguns motociclistas divulgavam distribuindo folders, o Cataratas Moto Fest de Puerto Iguazú, Província de Misiones, na República Argentina, que aconteceria no então longínquo maio de 2009.

Como não costumo fazer planos de viagens mais curtas para tempos distantes, porém, como mi gusta mucho viajar para e pela Argentina de moto, prometi a mim mesmo que estudaria a seu tempo essa possibilidade com carinho, e guardei com cuidado o tal folder.

Posteriormente, durante nossa viagem ao Ushuaia em novembro de 2008, o Augusto, entre uma milanesa ou uma Stella Artois gelada, comentou comigo da vontade que tinha de comparecer ao Cataratas Moto Fest, então a partir disso, procurando atender a outras vontades e compromissos meus, comecei a alinhavar minha viagem a Puerto Iguazú. Ali minha viagem já havia começado, pois adoro “viajar” previamente sobre os mapas definindo roteiros e preparando tudo o mais.

Em março de 2009 o Jorge Alencastro, grande motociclista gaúcho que habita atualmente Florianópolis (SC), resolveu fazer acontecer o Vagabond Weekend na cidade de sua morada atual, que pretendia ser um agradável revival dos antigos encontros de motociclistas, contrapondo a mesmice, a zoeira e a sanha arrecadadora dos eventos caça-níqueis atuais. Tal evento foi marcado para o sugestivo dia 1º de maio de 2009. Prontamente aderi à idéia e passei a divulgar o Vagabond Weekend, apesar do nome hollywoodeano.

Como eu teria uma reunião comercial em Gaspar (SC) e uma reunião com meu provável futuro editor em Pato Branco (PR), ambas no início de maio de 2009, como num passe de mágica tudo se encaixou qual um jogo de quebra-cabeça celestial.

E meu esboço de plano de vôo passou a contemplar vários compromissos, assim resumido: eu sairia de Guarulhos no dia 29 de abril para participar do Vagabond Weekend em Florianópolis; subiria para Blumenau (SC) para visitar o Pablo e sua filhinha Caroline, o Fred e o Oliani no dia 03 de maio, parando em Itapema (SC) para almoçar com o casal Wilma & Zé Pfeifer; no dia 04 de maio eu iria a Gaspar para minha reunião sobre os lubrificadores de correntes Lub Chain, e voltaria no mesmo dia para Blumenau, de onde partiria no dia seguinte rumo a Pato Branco para minha reunião na Imprepel e para visitar o casal Capitão & Margarete, o Ulisses Piva do Moto Grupo Old Duck e o Lucídio; no dia 06 de maio eu chegaria a Foz do Iguaçu (PR) onde me encontraria com o Augusto do BR M.C. de Nova Friburgo (RJ), que tem sido meu mais constante parceiro de viagens nos últimos tempos, além de outros companheiros de Minas Gerais, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Mas não sabia ainda quem viria. No dia 07 de maio atravessaríamos para o lado argentino da fronteira e nos instalaríamos em Puerto Iguazú para o Cataratas Moto Fest.

Maravilha ! Tudo certinho, mas como felizmente minha vida é sempre plena de alternativas e de alternâncias, por algum motivo não bem explicado, em meados de abril o Jorge Alencastro cancelou o Vagabond Weekend e, consequentemente, alterou meu esquema de viagem.

Daí, passei a dar contornos mais definidos ao meu roteiro e a falar mais amiúde com o Augusto, acerca de nosso ponto de encontro e da nossa viagem por terras do Mardona, Perón e San Martin.

Dias depois o Capitão tratou de solidificar de vez minha passagem e meu pernoite em Pato Branco, fazendo-me um irrecusável convite para uma ovelha assada na farinha crua de aipim, na chácara do Ulisses Piva, que é o covil campestre do Moto Grupo Old Duck.

Com os dias passando rapidamente, revisei eu mesmo minha moto (só Deus sabe com que “competência”), fui atrás de um capacete escamoteável e de botas impermeáveis para testá-los na estrada, e listei minha bagagem. Eu faria também o teste das calças e jaqueta da marca Scott.

No dia 27 de abril, uma segunda-feira sem a menor graça, recebi e-mail e telefonema do José Correia, projetista e fabricante do lubrificador Lub Chain, me dando conta de que ele estaria fora de Gaspar nos dias 04, 05 e 06 de maio por força de uma grande instalação industrial que estava supervisionando em outro município e, portanto, nossa reunião teria que ser adiada sine die. Paciência...

Mas nessa altura da safra essa alteração, ou subtração, na agenda não mudaria mais em nada meus planos, pois mais importante para mim seria rever e abraçar em Blumenau meus queridos amigos.

No dia 29 de abril os jornais da Grande São Paulo, em sua maioria, estampavam notícias alarmantes sobre a possibilidade de a gripe tipo A (suína) ter já contaminado pessoas no Brasil, em particular em Foz do Iguaçu e, por extensão, no Estado do Paraná. Tal suspeita não me pareceu descabida, considerando ser essa cidade uma das grandes portas de entrada para o país, além de ser grande pólo turístico. Então eu iria justamente para o olho do furacão ? Muito instigante.

Desculpem-me os certinhos e politicamente corretos, mas se não houver risco algum de nenhuma espécie, a coisa não me atrai. As viagens total e excessivamente planejadas, pasteurizadas, “quadradinhas”, deixo-as para os almofadinhas (coxinhas) ortodoxos.

No dia 30 de abril, uma quinta-feira de sol, o Everson de Bom Despacho (MG), diretor comercial do site WWW.mototour.com.br, me deu a boa notícia de que o Bleiner de Vitória (ES) e o Alípio de Vila Velha (ES) sairiam do Espírito Santo, pernoitariam em casa do Everson e de lá o trio se juntaria ao Eliseu, motociclista mineiro, e seguiriam rumo a Londrina (PR) e Puerto Iguazú. Fiquei feliz com a notícia de que eu me reencontraria com mais amigos queridos do que eu previa. Muito melhor, pois haveria mais gente para patrocinar a boa cerveja argentina.

Nessa ocasião, o Everson também me sondou meio que me convidando, para uma possível incursão através do Paraguay chegando a Asunción, e como segundo ele eu tenho certa tarimba em aduanas sul-americanas e me defendo bem no idioma de Cervantes, o Everson pensava ser de bom alvitre que eu os conduzisse em terras de Solano López. Como eu tinha um acerto com o Augusto, deixei para me decidir a respeito já na Argentina, depois de falar com meu parceiro de primeira hora nessa viagem. Mas como para mim atravessar La República Del Paraguay de moto é sempre excitante e incitante, já fiquei previamente inclinado a embarcar nessa.

PRIMEIRO DIA

02 de maio, sábado, saí de casa no Parque Cecap em Guarulhos (SP) às 07:00 h com muito frio. Entrei na Rodovia Presidente Dutra (BR-116) no sentido da capital de São Paulo, no seu final entrei à direita na Av. Marginal Direita do Rio Tietê até o início da Rodovia dos Bandeirantes (SP-348) onde entrei à esquerda e por ela segui até o Rodoanel de São Paulo, entrando nele à esquerda e seguindo até o seu término, na confluência com a Rodovia Regis Bittencourt (BR-116), na qual entrei à direita e segui no rumo sul.

O tempo estava estranho, como se quisesse brincar comigo ou me testar, pois ora abria e ora fechava esfriando muito a temperatura. Chegou até a garoar, mas não levei fé naquele arremedo de chuva.

Pela vez primeira eu passava pela Rodovia Regis Bittencourt com praças de pedágio em funcionamento, e o valor cobrado não me assustou nem um pouco. Achei justos os R$ 0,75, equivalentes a US $ 0,37.

Chegando à face norte do Vale do Ribeira no sul do Estado de São Paulo, atravessei os 31 km de pista simples dessa rodovia, e aí sim me causou revolta e indignação em virtude de estarem tendo a bárbara coragem de cobrarem pedágio num trecho bem arrebentado, estragado, muito perigoso, uma merda. É moralmente ilegal se cobrar pedágio num trecho assim. O Brasil, afora outras mazelas, é mesmo o país do desgoverno, do dinheiro fácil.

Mas dei o meu jeitinho e não deixei meu suado dinheiro para aqueles ladrões, pois colei a moto no pára-choques traseiro de uma caminhoneta e quando a cancela se abriu, passei juntinho do veículo pagante e prossegui satisfeito.

Nesse trecho havia chovido muito e forte na noite anterior e também na madrugada, a julgar pelas muitas poças de águas pluviais que ainda havia na estrada. Felizmente peguei apenas seus últimos respingos, e após apenas 230 km rodados fiz uma parada técnica em Jacupiranga (SP).

De Cajati (SP) até a Represa do Capivari, que abastece a Grande Curitiba (PR), viajei sob chuvas intermitentes, e atravessando a ponte da BR-116 sobre um dos canais dessa represa, notei que, em que pesem as chuvas abundantes recentes que haviam caído na região, o nível da lâmina d’água do reservatório continuava baixo, evidenciando que a seca havia sido e ainda estava brava por aquelas bandas.

Sobre a Regis Bittencourt, tenho que reconhecer que a concessionária dessa Rodovia teve ali a saudável preocupação de fazer uma micro raspagem nos trechos do leito carroçável onde a sinalização de solo deveria ser apagada ou alterada, proporcionando segurança aos usuários, e mormente a nós, os motociclistas.

E chega a ser paradoxal o fato de a mesma concessionária, a OHL Brasil, agir de formas tão antagônicas nas Rodovias Regis Bittencourt e Fernão Dias, pois na segunda a concessionária se utilizou de todo o descaso possível para com o usuário na execução do mesmo tipo de serviço, simplesmente “apagando” a sinalização de solo com uma demão de tinta preta do tipo esmalte brilhante que, em caso de chuvas ou mesmo de orvalho consistente, se torna um sabão, uma verdadeira tentativa de assassinato.

Ao atravessar a região da Grande Curitiba notei com alegria que não chovia, o que já foi um ganho, porque essa região é mais úmida que entrepernas de guria nova e fogosa em período fértil.

Fiz minha segunda parada para uma mijadinha, em São José dos Pinhais (PR), com mais 240 km rodados. Prossegui e logo após entrei na Rodovia BR-375 que liga Curitiba (PR) a Garuva (SC), cidade onde iniciei meu percurso pela Rodovia BR-101, novamente com chuvas intermitentes no lombo.

Apenas para registro, atualmente a Rodovia Regis Bittencourt conta com 5 praças de pedágio, e o complexo Rodovias BR-375 / BR-101 conta com 2 praças até Navegantes (SC).

Em Navegantes saí da BR-101, entrei à direita na Rodovia BR-470 e segui por uma estrada em obras até Blumenau (SC), onde cheguei e me dei conta de que eu havia errado de estrada, ainda que eu houvesse chegado ao destino programado para esse dia, após 680 km rodados.

Explicando, ocorreu que o Pablo ficou de me aguardar no posto da Polícia Rodoviária em Gaspar na estrada 470, e percebi que eu não havia passado por nenhum posto policial até chegar a Blumenau. Ao ligar ao Pablo tudo ficou esclarecido: ele marcou comigo na SC-470 e eu subi pela BR-470. Por causa de duas letrinhas apenas, o Pablo teve que dar uma baita volta para ir ao meu encontro. Sorry, Pablo !

Chegando à casa do Pablo, contrariei o Estatuto da Criança me instalando no quarto da pequena Caroline, desalojando-a. Tomamos umas brejas para lubrificar a conversa, e o Pablo ligou ao Gau, coisa que me deixou muito feliz.

O Gau soube de alguma forma que eu estaria em Blumenau, e como ele também lá estaria para o niver de um de seus genros, marido de sua filha Paula, ele havia ligado previamente ao Pablo nos convidando para o tal aniversário.

No início da noite o Pablo, a Caroline e eu fomos nos encontrar com o Gau, e então rolou muita emoção, porque o Gau e eu temos uma inabalável amizade de cerca de 40 anos, cujos alicerces sólidos baseados na sinceridade e no companheirismo são inquebrantáveis, ainda que alguns aventureiros tenham tentado implodi-los. Meu relacionamento com o Gau passou já por vendavais, longas secas, grandes temporais, erupções vulcânicas, terremotos, um tsunami e cataclismos outros. E entre beliscões e afagos sobrevivemos e ressuscitamos incólumes. Somos da época em que motociclista viajava de moto.

Fiquei extremamente feliz ao receber um abraço franco e um sorriso desmedido do Gau, pois devidas às recentes instabilidades no nosso horizonte por influência e maquinação de um seu agregado e de outros asseclas, eu tinha algumas dúvidas quanto ao resultado de nosso reencontro, e mais uma vez sobrevivemos bem.

Foi também muito bom poder rever a Paula, filha do Gau, e ver que também ela voltou à vida. E ela estava grávida ! Vovô Gau estava radiante ! Também revi Leopoldo e Kayo, filhos varões do Gau. Amo muito tudo isso.

Muitas cervejas mais tarde fomos dormir porque a Caroline dorme cedo, o Pablo estava gripado e eu cansadão da estrada e das fortes emoções do dia. O Gau nos disse que iria arranjar companhia para ir ao baile do risca-faca. Eita, Gau ! Que figuraça ! Que Deus te proteja sempre, meu querido amigo.

SEGUNDO DIA

Acordamos tarde, sem pressa... também, pudera ! O domingão do dia 03 de maio era dia de preguiça, ainda mais se considerarmos a plenitude do dia anterior. Para manter o ritmo aproveitei a calma da manhã para fazer anotações, limpar minhas caixas postais e responder os poucos e-mails que me haviam mandado.

No meio do dia fomos a Pomerode (SC), que assim como Blumenau, guarda todos os traços da forte influência da imigração bávara. Lá almoçamos no agradável Hotel Fazenda Mundo Antigo, e nos fartamos de marreco recheado assado com uma porção de tranqueiras interessantes e saborosas de acompanhamento.

Esse hotel fazenda é por demais pitoresco, encravado numa linda região, com construções rústicas, e nele tudo é feito de maneira artesanal, natureba, bem à moda antiga mesmo. Daí deriva seu nome. Passeamos um pouco pela área do hotel e retornamos a Blumenau para uma merecida siesta, ou algo parecido com isso.

Após um digestivo chá de hojas de coca, fui lubrificar a corrente de transmissão da moto e aí me dei conta de que a corrente e a coroa estavam em estado precário, no osso mesmo. Daqui prá frente a viagem se tornaria preocupante nesse aspecto. No finalzinho da tarde arrumei minhas tralhas, deixando tudo pronto para a manhã do dia seguinte.

Fomos comprar mais cerveja para reabastecer a geladeira do Pablo, e no retorno da padaria fui conferir minha rota para Pato Branco. Aí percebi que o Capitão se havia equivocado na informação a mim passada, pois caso eu fosse via Rio do Sul (SC), Taió (SC) e Santa Cecília (SC), eu iria enfrentar algumas léguas de estrada ruim, de chão. E o pior, a previsão do tempo era de chuvas, e para economizar apenas 52 km, não valeria a pena mesmo. E decidi então fazer um caminho que eu já conhecia, via Xanxerê (SC).

Jantamos uma buona pizza, e cama.

O início da história de Blumenau remonta o ano de 1843, quando o aprendiz de farmacêutico Hermann Otto Bruno Blumenau, pela primeira vez, ouviu do naturalista Alexandre Von Humboltd um relato acerca da América. De espírito aventureito, Hermann foi a Londres procurar o representante brasileiro para o Reino da Prússia, Sr. Jacob Sturz, que aqui esteve como minerador de ouro para os ingleses. Havia, segundo Sturz, amplas possibilidades de êxito numa expedição ao Brasil, idéia que Hermann cultivou até 1846, quando a bordo do veleiro Iohannes partiu rumo ao Porto de Rio Grande. Do Rio Grande do Sul partiu para o Rio de Janeiro, onde conheceu o seu futuro sócio, Fernando Hackradt. Em 1848, os dois, em companhia do cabo Ângelo Dias, desceram até o Rio Itajaí-Açú, acampando às margens do Ribeirão da Velha. Antes de retornar à Alemanha em busca de mão-de-obra, Hermann Blumenau apresentou ao Governo Imperial um plano de colonização.

No dia 02 de setembro de 1850, sob o comando de Reinoldo Gartner, chegaram os 17 primeiros colonizadores da região. Hermann retornou um ano depois e distribuiu, a partir de 1852, os primeiros lotes. Hermann permaneceu no Brasil até 1884, quando retornou à Alemanha ressentido com a má vontade e a incompreensão de algumas autoridades brasileiras. Em 1894 Blumenau passou à categoria de cidade, e o município chegou a ter uma área de 12.000 kilômetros quadrados que, a partir de 1934, deram origem a outros 31 municípios do Médio Vale do Itajaí. Atualmente Blumenau é sustentada principalmente pelo setor industrial de fiação e tecelagem, e mais de 1/3 de sua população está em atividade produtiva, proporcionando uma das rendas per capta mais altas do sul do país.

TERCEIRO DIA

Segunda-feira é dia de pegar no batente, e no meu caso, dia de estrada. O dia 04 de maio amanheceu de bom humor, acordei cedo, arrumei tudinho e saí às 7:00 h sem fazer barulho para não acordar o Pablo ou a Caroline.

O Pablo me havia feito, tal qual da vez anterior, um belo mapa para me orientar na saída da cidade, por um caminho que eu nunca havia feito. Com efeito, o Pablo teria tido sucesso na profissão de cartógrafo. E isso foi necessário também porque Blumenau é uma cidade onde é difícil se andar por uma via pública reta, pois suas ruas e avenidas serpenteiam por entre montes e vales, como que numa frenética dança do ventre, por conta de sua topografia bem acidentada.

Saí da casa do Pablo, contornei por onde a velha abre as pernas, segui por uma das pernas abertas da velha, cuja denominação me é bem familiar, Av. General Osório, entrei à direita na Rua Bahia e desemboquei na Rodovia BR-470 onde entrei à esquerda e passei a subir rumo ao oeste catarinense no sentido de Indaial, Asturra e Rio do Sul.

Cortando todo o vale do belo Rio Itajaí-Açú II até Agronômica (SC), a estrada estava muito travada e com sinais de chuva recente. Em Tromboso Central (SC) começou a chover, mas apenas levemente, e essa chuvinha-de-molhar-bobo não resistiu ao incontrolável narcisismo do bom tempo querendo se exibir a todo custo. Melhor assim.

Com apenas 140 km rodados parei em Pouso Redondo (SC) para o necessário desjejum, uma mijadinha e para aproveitar o pit stop, reabasteci a lambreta.

Nessa região de lindas serras com relevo privilegiado, nessa época do ano, há que se ter muita cautela porque com freqüência o motociclista tem que pilotar atravessando nuvens ao rés do chão, tendo que, literalmente, furar os stratocumulus e stratus.

De Curitibanos (SC) para a frente, adentrando ainda mais no oeste barriga verde, as araucárias começam a se fazer presentes na paisagem local, aparecendo por entre a exuberante vegetação com maior intensidade.

Atravessando o Vale do Rio do Peixe, lindo, diminuí a velocidade da moto ao máximo que a segurança me permitia naquele trecho, para poder apreciar melhor e reter dentro dos olhos e do pensamento o belo visual. Espetacular mesmo.

Na altura das entradas para Jaborá (SC) e Treze Tílias (SC), tem início uma pequena serra muito linda e prazeirosa de se trafegar de moto, com curvas reversas que parece terem sido talhadas a cinzel por e para motociclistas. Lá parei num belvedere com altitude de 1.193 metros acima do nível do mar, logo após Vargem Bonita (SC). Pena que minha cansada máquina fotográfica deu um faniquito e se recusou a sacar una foto.

Entre Catanduvas (SC) e Ponte Serrada (SC), no cruzamento com a Rodovia BR-153, a Rodovia BR-470 tem sua denominação alterada para BR-282, cuja altitude máxima nesse trecho é de 1.224 metros acima do nível do mar.

Entre Vargem Bonita e Ponte Serrada a estrada está muito, muito ruim, com buracos, calombos, fissuras e todo o tipo de imperfeições. Uma grande merda, porém em obras.

Cometi o erro de fazer, sem necessidade, uma parada técnica para alongamento e reabastecimento em Faxinal dos Guedes (SC), onde o preço do litro de gasolina era mais que um assalto, um verdadeiro estupro: R$ 2,89 !

Em Xanxerê (SC) saí da BR-282 e entrei à direita na Rodovia SC-480 no sentido de Abelardo Luz (SC) e do Estado do Paraná.

Após a cidade de Abelardo Luz o relevo da região nos apresenta uma sucessão de coxilhas, fazendo com que o leito carroçável da Via SC-480 pareça um tobogã surreal e não muito inclinado, qual uma descomunal cobra negra em convulsão.

No final da Via SC-480, na divisa entre os Estados de Santa Catarina e do Paraná, entrei à esquerda na Rodovia BR-280 rumo a Pato Branco.

Aqui cabe um esclarecimento, pois pairam dúvidas e há controvérsias de fundo genético acerca da cepa da Rodovia 280, pois uns dizem que a estrada é uma BR, e outros afirmam ser ela uma legítima PR... e ao longo da mesma deparamos com as duas identificações. E há ainda os que afirmam que seu número não é 280, mas sim 480. Assim fica difícil. A única coisa certa é que esse caminho se desenvolve quase que sobre a linha de divisa entre os dois estados citados da Região Sul do país.

E cheguei a Pato Branco, daí ! E fui diretamente para o Luz Hotel, onde o Capitão gentilmente me havia feito reserva de hospedagem. Me instalei, faxinei minhas roupas de viagem e meu capacete, e logo o Capitão ligou para me dar as boas vindas e combinarmos o horário para que fôssemos ao jantar no sítio ou chácara do Ulisses Piva.

Desci, estacionei melhor a moto, telefonei à Fatiminha, e antes de voltar ao quarto do hotel, melhorei a acomodação de parte de minha bagagem. Aproveitei para vistoriar a transmissão da lambreta, que deu muitos estalos na vinda, e constatei que estava toda moída, acabada, pronta para autópsia, e pensei então logo numa providencial visita ao Lucídio, o melhor mecânico de motos da região, além de um bom amigo.

Chegando ao hotel o Capitão, fomos para a sede rural do Moto Grupo Old Duck, onde o Miguel já preparava a tal ovelha assada na farinha crua de aipim, com complementos. O Miguel é o melhor churrasqueiro daquelas bandas ocidentais, o rei da brasa, o mago do espeto, e esse assado de ovelha é uma de suas especialidades.

Com muita cerveja prá molhar o verbo, nos fartamos de um excelente churrasco em ótima companhia. No final da comilança o Capitão resolveu me homenagear me  entregando um troféu especial da organização do 2º Moto Pato, o que me pegou de surpresa e me deixou sem palavras. Afinal compensou em dobro terem me surrupiado o troféu de participação por ocasião do dito evento, em setembro de 2008.

Totalmente satisfeito e feliz, fui dormir o sono dos justos, ainda que eu não me sinta merecedor desse rótulo.

QUARTO DIA

Talvez pelo cansaço acumulado, ou talvez pelo efeito sedativo da saborosa ovelha assada, no dia 05 de maio, terça-feira de cara boa, me acordei bem tarde, no limite de perder a hora do café da manhã do hotel. Fiz algumas anotações e saí em busca de uma caixa onde coubesse o troféu que eu havia ganho, para poder despachá-lo via Correios para casa, pois não queria correr o risco de danificá-lo durante a viagem, que recém começara.

Nesse dia o Bleiner e o Alípio sairiam de Vitória e de Vila Velha no Espírito Santo, e pernoitariam em Bom Despacho (MG) na casa do Everson, de onde sairiam no dia seguinte juntamente com o Eliseu para o Cataratas Moto Fest em Puerto Iguazú (AR), e nos juntaríamos todos em Foz do Iguaçu (PR) no dia 07 de maio.

Consegui a caixa que eu procurava, numa loja de utilidades domésticas, comprei papel e fita adesiva e fiz uma embalagem bem meia-boca, mas que serviria aos objetivos. Foi quando aportou no hotel o Capitão, para ir comigo à oficina do Lucídio.

Na oficina, ao examinar a transmissão de minha lambreta, o Lucídio disse não entender como eu tinha conseguido chegar a Pato Branco, e foi taxativo quanto ao diagnóstico ao afirmar que eu não chegaria ao final dessa viagem sem algum problema maior, caso eu não substituísse toda a transmissão.

Como seria de se esperar, nem o Lucídio e nem as lojas especializadas da cidade e da região tinhas as peças para minha moto, mas por ser bem safo e muito profissional, o Lucídio me preparou uma transmissão secundária frankstein adaptando coroa e pinhão de Honda CBX 750 e corrente de Honda Shadow 600, bastando para isso uma boa gambiarra, trocando os miolos da coroa e do pinhão pelos que estavam em uso, cortando-os no torno e fixando-os com solda Mig, gabaritando nova furação para os parafusos e tirando 8 elos da corrente. Ficou um luxo, perfeita. Como essa nova coroa tem 2 dentes a menos, teoricamente aliviaria o torque diminuindo um pouquinho o giro do motor. E deu um toque visual de robustez à moto. Muito bom mesmo.

Que fique claro que essa adaptação foi saudada como a salvação da lavoura, por ser evidente que seria pedir demais que houvesse no oeste paranaense peças de reposição originais para uma BMW F 650 GS. Apenas por isso.

Nesse meio tempo, como o Capitão estava às voltas com o fechamento do jornal, ele havia me deixado na oficina do Lucídio e tinha ido trabalhar, mas retornou à oficina logo depois para fazer orçamento de conserto numa moto de entrega de butijões de gás, a qual ele havia abalroado, mas felizmente sem a menor gravidade e com danos materiais de pouca monta.

Tudo encaminhado, o Capitão e eu fomos almoçar no Restaurante Pequim, onde é servido um convidativo buffet variado de pratos orientais. Apetitoso. À guisa de sobremesa fui navegar na Internet.

No início da tarde fui para minha reunião na Editora Imprepel e o Capitão correu para prosseguir trabalhando no fechamento do jornal. A reunião com o Paulo José, meu provável futuro editor, durou uma 3 horas e avançamos bastante na concepção de meu 1º livro. Definimos capa, acabamento, título provável e detalhes de texto, fotos e cores. Fiquei um tanto animado.

Saindo da Editora fui a uma agência dos Correios despachar a caixa com o troféu, duas cuias para chimarrão e outras miudezas mais. No retorno passei no escritório do Capitão e fomos buscar minha moto na oficina do Lucídio. O Capitão me deixou lá e foi-se embora bem rápido por conta de seus compromissos. Definitivamente eu o estava atrapalhando sobremaneira ! E ele estava me mimando demais.

Minha lambreta ficou bacana de transmissão mais robusta. O resultado foi excelente e assim eu poderia seguir viagem em segurança e sem preocupações extras e desnecessárias. O Lucídio é mesmo o melhor mecânico de motos do Paraná, e um dos melhores do país.

Numa conversa regada a chimarrão, o Lucídio me disse que também iria para o Cataratas Moto Fest em Puerto Iguazú, e marcamos de tomar umas geladas juntos em terras de Fito Paez, Charlie Garcia e San Martin.

E retornei ao hotel para tomar algumas providências de ordem prática.

Pato Branco é mesmo uma bela cidade com excepcional qualidade de vida, e é interessante se notar que em cada início e fim de quadra, em praticamente toda a zona urbana, há vagas para estacionamento exclusivo de motos. Isso é próprio de pessoas que pensam longe, adiante do seu tempo. E que se registre aqui que essa cidade tem um grande contingente de lindas mulheres... ah ! Meus vinte e poucos anos...

Muitas e muitas Primaveras atrás, a estrada de chão batido que partia de Clevelândia rumo a Barracão, passando por São Joaquim e pelas cabeceiras do Rio Pato Branco, servia de lugar de pouso para os pioneiros por volta do ano de 1.915. Esses pioneiros ao se instalarem em áreas consideradas boas e férteis, abriam estradas pelo sertão. O povoamento denominado primeiramente Vila Nova de Clevelândia, e que mais tarde teria o nome de Pato Branco, iniciou-se em 1.924. Apesar de o forte de sua economia centrar no setor de serviços, Pato Branco procura diversificar e incrementar sua economia com empresas e indústrias nas áreas de informática e de eletro-eletrônicos por meio de fortes incentivos fiscais. Destaca-se também na sua micro-região como excelente centro médico.

À noite o Capitão me levou para jantar e relaxar no Maquina’s Bar, o point local dos motociclistas e descolados. Auxiliados fundamentalmente por alguns chopps, saboreamos pratos deliciosos e feitos com competência. O Capitão comeu um filet a La parmeggiana, e eu um salmão metido a besta com aspargos, cogumelos, camarões e alcaparras. Chique demais, gente !

O Capitão é sempre um excelente interlocutor, e nesse jantar nossa prosa versou acerca do mercado editorial nacional, patrocinadores, apoiadores e aproveitadores culturais com as implicações advindas da sintonia e da distonia entre eles.

Mais tarde fui dormir objetivando um sono reparador para um dia seguinte de pouca estrada, pois seriam pouco mais de 400 km até Foz do Iguaçu. Mas estrada é estrada, portanto...

QUINTO DIA

Por absoluta falta de necessidade e por não estar nenhum pouco ansioso, não acordei muito cedo na quarta-feira, dia 06 de maio. Arrumei minhas bagagens, encilhei a moto e tomei o café da manhã com calma.

Nesse dia o Augusto e o casal Gustavo & Naná sairiam de Nova Friburgo (RJ) numa moto e num trike, se juntariam ao Geraldo do Jornal Moto Cycle em Nova Iguaçu (RJ), e juntos iriam para o Cataratas Moto Fest de Puerto Iguazú. Nos encontraríamos todos em Foz do Iguaçu no dia seguinte.

O Capitão chegou para me acompanhar até a saída de Pato Branco e fazer meu bota-fora, e me presenteou com um tubo de Capasec, uma beleza de produto para se higienizar interiores de capacetes.

Me despedi do Capitão à beira do caminho, no acostamento da Rodovia BR-280, ou seria a PR-280 ? Às 9:00 h segui rumo a Foz do Iguaçu, na direção de Francisco Beltrão (PR), Realeza (PR) e Capitão Leônidas Marques (PR). Este é um pedaço muito bonito do oeste paranaense, onde o relevo e a vegetação nos proporcionam um espetáculo visualmente belo e muito agradável aos olhos.

No trevo de Capanema (PR) entrei na Rodovia PR-182 e segui no sentido de Lindoeste (PR) e comecei a contornar o Parque Nacional do Iguaçu, só terminando em Céu Azul (PR), pouco antes de Matelândia (PR).

Já próximo a Cascavel (PR), entrei à esquerda cortando caminho por Santa Tereza do Oeste (PR), desembocando na Rodovia BR-277, onde entrei à esquerda e segui para Foz do Iguaçu. Essa pequena quebrada de asa me economizou cerca de 40 km.

Na BR-277, entre Cascavel e Foz do Iguaçu, há duas praças de pedágio, melhor dizendo, um assalto violento e um coice no fígado cirrótico com soco inglês, ou seja, R$ 3,50 e R$ 4,70 para motos ! Um roubo institucionalizado !

Atingindo Medianeira (PR), ao avistar o prédio do Hotel Grande Iguaçu, me lembrei com saudade do dia em que ali parei com a Fatiminha para conhecer pessoalmente o Zé Pfeifer e sua esposa Wilma. Atualmente o casal reside em Itapema (SC).

De transmissão secundária novinha na moto cheguei a Foz do Iguaçu e me guiei pelas placas indicativas para chegar ao centro da cidade e à Avenida Brasil, onde se situa o Hotel Águas do Iguaçu, no qual eu havia feito reserva.

Após me instalar convenientemente no hotel, fui dar um bordejo pela cidade, comi uns trecos interessantes no Quiosque Boca Maldita situado na própria Av. Brasil, telefonei à Fatiminha e ao Tiba, assuntei sobre a situação no vizinho Paraguay, internetei um pouco e fui descansar.

Mais tarde mandei bala num bom sorvetinho e consegui falar com o Everson pelo MSN para combinar com ele nosso encontro no dia seguinte à tarde no Posto Gasparin, na entrada da cidade. O Everson, o Eliseu, o Bleiner e o Alípio estavam em Londrina (PR), onde pernoitariam.

Não consegui contato com o Augusto, que estava vindo no bonde fluminense com o Geraldo e o casal Gustavo & Naná, e que provavelmente estivessem também por Londrina, ou talvez por Ourinhos (SP).

Mandei um sinal de fumaça para o povo das duas rodas e fui dormir satisfeito. Aproveito para registrar que até onde eu sei, o hotel onde eu estava hospedado é o único que se tem notícia que para se usar a conexão wi-fi interna, é necessário se pagar. Haja ladrão nessa terrinha infeliz.

SEXTO DIA

Tencionando dar uma volta na bagunça fronteiriça do lado paraguayo, na quinta-feira, dia 07 de maio, me acordei cedo, tomei um café da manhã bem razoável, saí do hotel, peguei um ônibus e me mandei para a terra do Fernando Lugo, o bispo comedor.

Dia lindo, céu de brigadeiro, calma sobre a Ponte da Amizade, poucos turistas e poucas vendas de bugigangas e tranqueiras.

Comprei pilhas comuns e recarregáveis, fita adesiva de acetato, cartões de memória SD de 16 GB e micro SD de 8 GB, pasta de dente e 10 caixas de Pramil 50 mg (não foi, Gilmar ?). Como o dia estava bastante quente, tomei uma garrafa de água mineral gaseificada sem gás. Por aquelas paragens até o gás da água mineral é falsificado.

Voltei para Foz do Iguaçu e para o hotel notando com certa surpresa que, apenas no quarteirão onde fica o hotel, havia 11 farmácias. Não restam dúvidas de que se trata de uma bela e acolhedora cidade, mas alguma coisa não anda bem em Foz do Iguaçu...

A região da foz do Rio Iguaçu foi descoberta pelo espanhol Álvar Nuñez Cabeza de Vaca em 1542. Entre os anos de 1609 a 1839 as Bandeiras garantiram ao Brasil o domínio e a posse da região. Finalmente a partir de 1881 a região foi ocupada por imigrantes, e em 14 de março de 1914 foi criado o município de Vila Iguaçu, tendo o Coronel Jorge Schimmelpfeng como primeiro prefeito. No ano de 1939 foi fundado o Parque Nacional do Iguaçu, porém não se sabe e não se comenta muito o que sucedeu antes dessas datas, e entre 1888 e 1914 muita coisa além das águas rolou pelas cataratas. Entre outras coisas, o que hoje é Foz do Iguaçu passou 20 anos como uma Colônia Militar, onde não se recolhem impostos, como IPTU ou ISSQN. Não se compra, troca ou vende terrenos.

Ninguém é eleito, e quem manda é o comandante. A Colônia Militar do Iguaçu conseguiu afirmar a presença brasileira na região, mas não levou prosperidade para o lugar porque tudo era muito longe dali, e o colonial (iguaçuense da época) não tinha estímulo para produzir. Até meados dos anos 30 a região era dominada pelo cultivo da erva mate. Por fim o Governo da República resolveu entregar a Colônia ao Estado do Paraná. Hoje Foz do Iguaçu convive com a cultura de 65 etnias que compõem sua população. A região é exemplo para o mundo de coexistência e convivência pacíficas entre povos tão díspares quanto o judeu, o árabe, o polonês, o alemão, o brasileiro, o paraguayo, o argentino, o chinês, o coreano, o italiano, o japonês, o português. Toda essa variedade faz com que a região viva intensamente o multilinguismo descrito no clássico Blade Runner, filme de Ridley Scott.

A película mostra que a língua falada numa grande metrópole de 2025 é um “codemixing” de vários dialetos. O caldeirão cultural da Tríplice Fronteira rendeu o nome para o espaço mais democrático da comunidade, situado na Zona Central de Foz do Iguaçu, a Praça das Nações, que é uma referência às 65 etnias do município. Ela é o palco das manifestações dos povos que formam uma região única no planeta.

Como eu havia já deixado tudo no jeito, apenas fechei a conta do hotel e me dirigi ao tal Posto Gasparin para esperar os componentes dos 2 bondes chegarem, para que todos juntos fôssemos para o lado argentino.

Esperei, tomei um sorvete, esperei, tomei água com bolinhas, esperei, tomei outro sorvete, esperei e afinal chegou o primeiro bonde composto pelo Everson, Bleiner, Eliseu e Alípio.

Após a alegria e a farra do reencontro, ficamos esperando a chegada do segundo bonde, e nesse meio tempo o Everson me contou que o Eliseu havia esquecido em casa todos os seus documentos, e portava apenas sua Carteira Nacional de Habilitação. Senti cheiro de problema no ar.

Muitas colheradas de paçoca de carne com farinha depois, chegou o bonde fluminense formado pelo Augusto, Geraldo e o casal Gustavo & Naná. Aí a farra ficou completa e pudemos enfim fazer uma confraternização geral e irrestrita.

O Everson tentou fazer contato com o Alejandro da organização do Cataratas Moto Fest para tentar solucionar o problema da falta de documentos do Eliseu, mas sem sucesso. A coisa mais razoável a fazer era tentar dar um jeitinho na aduana argentina, muito embora eu tivesse quase certeza de que o Eliseu iria enroscar lá. Mas fomos todos para esse possível enrosco.

Reentrei em Foz do Iguaçu e juntos atravessamos a cidade. Cruzamos a Ponte Internacional Presidente Tancredo Neves e chegamos em território argentino, onde fizemos nossos vistos de entrada no país. O Everson conseguiu contato com a organização do evento, que tentou sem sucesso solucionar o problema da entrada em solo argentino do Eliseu sem-lenço-e-sem-documento.

O Everson e o Geraldo permaneceram com o Eliseu na aduana argentina, e o restante do bonde seguiu para o Latino Hotel onde eu havia feito reservas para o Augusto e para mim. Lá conseguimos com facilidade acomodações para toda a troupe.

Nos instalamos com calma e depois fomos para um restaurantezinho próximo ao hotel, chamado Lãs Cañitas, para um happy hour de conversa mole regado a cuba libre e cerveja. Ali Gustavo & Naná resolveram cair de boca numa parrillada. Após baixarmos a adrenalina, deixamos o casal jantando em paz e o Augusto, o Alípio, o Bleiner e eu fomos destroçar umas pizzas no excelente Color – Pizzaria e Parrilla.

O Everson e o Geraldo tinham aparecido no Lãs Cañitas, porém quando fomos para a pizzaria, por estarem de moto e nós a pé, se escafederam e não os encontramos mais nessa noite... foi pena. Quando já retornávamos ao hotel, começou a chover, e choveu muito e forte a noite inteira, e esfriou um pouco também. Dormi bem prá cacete.

SÉTIMO DIA

A sexta-feira, dia 08 de maio, amanheceu estranha, de mau humor, bem com cara de sexta-feira mesmo, como se tivesse amanhecido por pura obrigação, senti que havia alguma coisa estranha no ar, e não era o odor nauseabundo de uma bufa. Quando fomos ter nosso desjejum, apesar do tempo carrancudo, naquele momento não chovia, mas tal arremedo de melhora das condições climáticas durou pouco.

Com a chuvarada a cidade virou um mingau grudento de barro e lama vermelhos, melecando tudo, porque na periferia de Puerto Iguazú há muitas ruas sem calçamento e a circulação de veículos leva forçosamente para as ruas pavimentadas uma camada de lama, o que fez com que o ato de se andar de moto pela cidade se tornasse uma loteria perigosa, pois as quedas tornaram-se iminentes, além de deixar tudo muito sujo.

Mesmo debaixo de chuva o Gustavo e o Augusto foram de trike ao recinto do evento para se inscreverem e analisarem a situação da área reservada para camping. Quando voltaram de lá, o Gustavo e a Naná fecharam a conta do hotel e foram se instalar na área de camping do Cataratas Moto Fest.

Com a chuva quase parando, fomos dar um passeio pela cidade. Compramos algumas besteirinhas, fizemos cambio e acabamos por almoçar no bom Restaurante Il Fratello. Comemos milanesas de vitela e bifes de chorizo, carnes espetaculares e magistralmente preparadas. Para ajudar a empurrar o entulho resolvi experimentar a Patagônia, uma cerveja encorpada e deliciosa, feita e envasada no caminho para o Ushuaia. E fomos muito bem servidos pela bela Eliana, um mimo de menina.

Como lá todo o comércio da cidade fecha para la siesta, voltamos ao hotel para descansarmos e entrarmos no embalo do lugar. Depois o Augusto foi ao recinto do evento, eu fui escrever e o Alípio e o Bleiner saíram para lugar incerto e não sabido.

Iguazú significa águas grandes no idioma Guarany, e Puerto Iguazú, que significa porto das águas caudalosas, se situa a 300 km ao norte de Posadas, em território argentino, e fica na região denominada Tríplice Fronteira, entre Brasil, Paraguay e Argentina, e na confluência entre os rios Paraná e Iguaçu. Atualmente Puerto Iguazú tem cerca de 30 mil habitantes que, em sua maioria, se dedicam às atividades ligadas ao turismo, com uma desenvolvida indústria hoteleira.

No final da tarde resolvi ir com o Alípio ao Quartel de La Compañia de Cazadores de Monte nº 12 del Ejército Argentino, no Km 7,5 da Ruta 12, lugar esse que é o recinto onde acontecia o Cataratas Moto Fest. Fomos lá para um reconhecimento da festa e para sentirmos como estava a temperatura do evento. Gostamos do que vimos, muita organização, total segurança, nada de zoeira, gente bonita e organizadores extremamente simpáticos e atenciosos. De quebra, um som espetacular. Há quanto tempo eu não ouvia um bom blues num evento motociclístico ! Seria de bom alvitre que os organizadores da maioria dos eventos que acontecem no Brasil, se espelhasse no Cataratas Moto Fest.

Tenho que registrar aqui que, no início de nosso caminho até o evento, por conta da lama resultante das chuvas e da cabeça dura do Alípio, que resolveu entrar numa rua sem pavimentação, quase ganhamos problemas sérios, pois o Alípio tombou sua moto, e eu só não caí porque alguma coisa saiu diferente do previsto, pois a lógica seria que eu também fosse para o chão. Mas felizmente foi apenas o susto. E que susto !

No evento conheci pessoalmente o Alejandro, presidente do M.C. Aguilas de La frontera, e consegui falar com o Everson e com o Geraldo, e então fiquei sabendo que os dois metidos a gente fina acharam que a hospedagem em Puerto Iguazú era pouco para eles, e foram se instalar num hotel de grã-finos em Foz do Iguaçu. Por isso que não conseguíamos encontrá-los.

O Bleiner me presenteou com uma garrafa de licor de flor de tília, uma bebida muito especial obtida de uma flor mais especial ainda. Coisa rara. E ele havia trazido a garrafa desde Vitória (ES). Obrigado pelo carinho, Bleiner.

Após a hora da Ave-Maria, quando a noite se derramou de mansinho através das avenidas, ruas e becos, desceu sobre a cidade e região uma densa neblina, e rasgando essa bruma, voltamos ao hotel em meio a um cenário surreal e interessante. Com isso a temperatura baixou razoavelmente.

Mais tarde fomos sapear pelo comércio da Zona Central da cidade, e comprei presentes para a Fatiminha, para o Tiba e para minhas filhas, Thaís e Mayuí. Depois, para fecharmos a noite, voltamos ao Il Fratello para um tardio happy hour, e dessa vez sorvemos um competente cuba-libre feito com rum Captain Morgan. Muito depois retornamos ao hotel para uma boa noite de sono.

OITAVO DIA

Como estivesse frio prá dedéu, no sábado, dia 09 de maio, acordamos mais tarde e tomamos um café da manhã de forma vagarosa, qual taturana subindo na amoreira. Depois fui a uma farmácia comprar relaxante muscular e algumas caixas do Magnus 50 mg, um eficiente levantador de moral masculino, e junto com Bleiner e Alípio fui a Foz do Iguaçu para despachar para casa um monte de tranqueiras com algumas roupas sujas enfiadas no meio para dar “sustança” ao pacote. Assim minha viagem ficaria mais leve.

Nessa altura eu já havia concordado em capitanear o Bonde de Asunción, já havia conversado com o Augusto que me disse não ter perdido nada no Paraguay, não tendo nada portanto para fazer lá, e ficou acertado que esse bonde seria composto por Bleiner, Everson, Geraldo, Vonei, Alípio e eu. Cortaríamos a Província de Misiones indo até Posadas em território argentino, entraríamos no Paraguay por Encarnación (que para o Augusto é Concepción), indo até a capital federal e retornando via Coronel Olviedo, Caaguazú e Ciudad Del Este.

Para irmos aos Correios em Foz do Iguaçu, na aduana argentina tive que fazer os trâmites de saída do país. Paciência, nem tudo é bagunçado como o Brasil e o Paraguay. São trâmites que aborrecem a gente, mas não há como passar por cima deles.

Já em Foz do Iguaçu, enquanto eu fui aos Correios, o Alípio foi procurar um desaguadouro a fim de viabilizar uma mijadinha, e o Bleiner foi a um caixa eletrônico do Banco do Brasil. E não é que a funcionária dos Correios me barrou as remessas de parte das muambas ? Argumentei, mas sem o menor sucesso, e tive que levar de volta os cartões de memória e os medicamentos. Se ao menos ela quisesse fazer um test drive do Magnus comigo...

No retorno à Argentina aproveitamos para uma visita ao Free Shopping situado logo após à Ponte Internacional Tancredo Neves, e lá flagramos o Everson a comprar umas quantas garrafas de whisky 12 years old. O vivente é chique mesmo. O Alípio e eu compramos um tal de Licor 43, de procedência espanhola, elaborado com 43 frutas e flores diversas. Um luxo ! Delicioso ! Sim, porque antes de comprá-lo experimentamos “umas” doses.

Decidimos passar no hotel em que estávamos para deixarmos as coisas que compramos para depois voltarmos ao recinto do evento, e foi quando reapareceu o Geraldo. Então fomos todos para o Quartel da Compañia de Cazadores de Monte nº 12, e quando chegávamos à portaria, ao pararmos para algumas fotos, a maioria dos participantes do evento saía para um passeio pelas cercanias da cidade. E eu entrei sozinho no recinto, pois todos foram junto acompanhando o passeio, que era parte oficial do evento.

Fui zanzar um pouco pelo quartel apreciando (de longe) algumas lindas mulheres, e acabei reencontrando o Eliseu sem-lenço-e-sem-documento, que havia deixado a moto e as tralhas de viagem do lado brasileiro e entrara ilegalmente na Argentina, se aproveitando da abertura, da vista grossa que a aduana estava fazendo a pedido da organização do evento. Estava valendo quase tudo. Gostei. Conversamos bastante, tomamos algumas e rimos muito.

Em meio a essa conversaiada toda, conheci o Carlos, um paraguayo gente fina que estava morando em Salto del Guayra, quase na fronteira norte do Paraguay com o Brasil. Conheci também o Like e sua esposa Angelita, extremamente simpáticos e prestativos, que moram no município de Marmeleiro (PR), e junto com eles estavam alguns motociclistas do Guarás Moto Grupo, do Paraguay.

Quando o Bleiner, o Alípio, o Everson e o Geraldo voltaram do passeio, fomos todos almoçar um bom bife de chorizo novamente no Il Fratello, e novamente servidos pela gracinha da Eliana. Quando lá chegamos tive a surpresa e o prazer de reencontrar o Pandini, de São Lourenço do Sul (PR), com mais alguns motociclistas de lá. Conversamos bastante, matamos saudades, fofocamos um pouco e almoçamos muito bem. E degustei uma excelente e encorpada Patagônia.

Como já estava em tempo, começamos a nos preocupar com o recolhimento do necessário seguro Carta-Verde para podermos executar nosso plano de vôo sem problemas ou sobressaltos.

Como era hora da sagrada siesta, voltamos para o evento tencionando retornar mais tarde ao centro da cidade para encaminharmos e viabilizarmos o recolhimento do tal seguro.

No evento o Everson conversou com um integrante do Moto Clube organizador do Cataratas Moto Fest, que acionou um corretor de seguros seu amigo que abriu seu escritório especialmente para nos atender, e ainda por cima cobrou apenas  $ 37,00 (pesos argentinos) por moto para um seguro por 7 dias. Naquela data isso equivalia a R$ 22,00, uma barbada, um achado !

E deu quase tudo certo, porque o Vonei, motociclista que o Everson havia recém conhecido e um grande praça, deixou para o corretor os documentos de um auto Apollo. Como todos tinham ido embora e eu fiquei sozinho esperando pelas apólices de todo o grupo, deixei pago, porém pendurado, o seguro do Vonei. O Alípio tinha ido cambiar pesos e voltou para não me deixar sozinho no escritório do corretor.

Voltamos então para o recinto do evento e expliquei ao Everson o problema que houve com o seguro da moto do Vonei, para que ele localizasse o vivente e fizesse com que ele regularizasse a coisa para podermos todos seguir viagem no dia seguinte para Asunción.

Fiquei mais um tempo no evento me deliciando demais com a apresentação de uma competente banda de Blues, e fui aos poucos me despedindo das pessoas. Também acertei uma troca de camisas (cambio de remeras) com o Alejandro, e depois rumei para o hotel e comecei a por ordem nas minhas bagagens.

Naveguei um pouco na Internet, tentei executar a tarefa inglória de limpar um pouco da terra vermelha das minhas coisas, fiz anotações e fui dormir sonhando (ou tendo pesadelos) com pó de terra vermelha. Mas esse pó entranha em todo lugar, inclusive lá... e agarra até na alma ! Eita terrinha !

NONO DIA

O Augusto pegaria estrada bem cedo com Gustavo & Naná iniciando o retorno a Nova Friburgo (RJ), e para não atrasá-los me acordei bem cedo também para fechar a conta do hotel conjunta com o Augusto, para poder tomar mais este café da manhã na companhia desse meu parceiro de fé, e para me despedir deles desejando-lhes uma viagem tranqüila e agradável.

Depois, com a moto já encilhada, me encontrei com a raça na portaria do hotel em que estávamos, e como o Bleiner e o Alípio iriam reabastecer suas motos, combinamos de nos encontrarmos todos com o Everson na portaria do quartel onde rolava o evento. O Vonei ficaria em Puerto Iguazú para solucionar seu enrosco documental com relação ao seguro Carta-Verde, tencionando nos reencontrar em Posadas (AR).

Por fim nos encontramos com o Everson já no acostamento da Ruta 12 e seguimos por ela para o oeste argentino numa estrada maravilhosa, excelentemente bem conservada, lindinha. Em horas como essas, admirando a excelência das rodovias dos países vizinhos, é que me dá mais vergonha ainda de ser brasileiro também. O que me salva é o passaporte italiano (ma non troppo).

Em Puerto Esperanza (AR) paramos para reabastecimento, alongamento bundal e mijadinha amiga (Não é, Alípio ?)

Como a raça que formava esse Bonde de Asunción era faminta na sua quase totalidade, como me pareceu, resolveram que estavam com fominha e pararam para almoçar em Puerto Rico (AR) na Churasqueria Tio Otto. Para não ser o único a destoar do passo, fiz companhia ao grupo ingerindo uma ração leve, mais à base de cereais e vegetais com ovos de perdiz. E saboreei com gosto uma salada de feijão branco com grãos de cerca de 3 cm, medidos in loco.

Antes que nos desse a lombeira como efeito da digestão, tratamos de seguir viagem prosseguindo pela Ruta 12, que corta uma pujante região madeireira onde se podiam notar vastas extensões de terra voltadas ao reflorestamento de Pinus, Eucaliptos e Acácias Negras.

O dia permanecia lindo, sorridente, com céu de brigadeiro da R.A.F. (The Royal Air Force), e com um saudável calor a aquecer nossos sonhos.

Num dado momento, sem motivos aparentes, qual um bagual o Alípio sumiu. E o curioso foi que esse aprendiz de mustang não sumiu ficando para trás, o que denotaria um certo descaso do grupo para com ele, mas sim acelerou com fúria e escafedeu-se no horizonte da Província de Misiones. Sem entender o que se passava com o intrépido Valentino Rossi tardio, e já um tanto preocupado com o vivente, passei a puxar o grupo na média de velocidade entre 130 e 140 km/h, mas não conseguimos mais alcançar o fujão. Paciência...

Quando entrávamos na cidade de Posadas, pedimos informação aos ocupantes de uma 4 X 4 com placas paraguayas, e eles gentilmente nos conduziram até a Av. Costanera, uma linda via que margeia o Rio Paraná, e é nessa avenida que a moçada vai à noite, e que serve de referência para se guiar pela cidade. Paramos para apreciar a beleza do lugar, fazer fotos, nos hidratarmos, e o Everson aproveitou para ir a uma farmácia.

Procuramos alguns hotéis mais centrais, porém não gostamos nem da faccia e nem dos preços praticados naquelas espeluncas, e fomos mesmo para o Le Petit Hotel, atendendo à gentil sugestão do Augusto. Tratava-se o Le Petit, de um hotelzinho simples, porém decente, com preços palatáveis, e com o agradável adicional de termos sido atendidos pela bela Laura.

Nos instalamos e resolvemos ir a um telecentro para ligarmos para o Brasil, e no caminho passamos numa delegacia de polícia para pedirmos que tentassem localizar o Alípio. Nisso tropeçamos no Vonei, ou ele em nós, que acabava de chegar a Posadas. Levamo-lo ao Le Petit para que pudesse se instalar, e nisso o Bleiner conseguiu contato com Alípio, o bagual, através da Internet, e deu a ele a direção do hotel em que estávamos.

Há mais de 10 mil anos o território de Misiones era ocupado por povos indígenas de características diversas, e entre eles se destacavam Tobas, Matacos, Pilagás, Chulupíes e Guaranies. Em 1550 a Companhia de Jesus se instalou na região para iniciar a catequese desses povos, e o padre Manoel de Lôbrega se encarregou dessa tarefa. Apesar disso, as primeiras reduções jesuíticas de caráter oficial foram instaladas ali somente em 1565, por obra do padre Roque González de Santa Cruz. A história da cidade de Posadas remonta a março de 1615, quando este jesuíta funda a Redução de Nuestra Señora de La Anunciación de Itapúa, dentro de um projeto aprovado pelo então governador de Asunción, Hernando Arias de Saavedra. Foram erigidas 10 reduções que abrigaram milhares de indígenas. As ruínas dessas missões são testemunhas desse grande trabalho, e foram declaradas Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

Em 1773 essas missões chegaram a reunir 46.500 habitantes, superando Córdoba e Buenos Aires, mas a expulsão dos jesuítas em 1767 provocou a decadência da região. A Redução de Nuestra Señora de La Anunciación de Itapúa funcionou por 6 anos, sendo transferida depois para o território paraguayo, mas em seu antigo núcleo foi mantido um modesto casario que daria continuidade ao que hoje é a bela cidade de Posadas, sob a denominação de Trinchera da San José, por conta de uma trincheira feita utilizando-se as muralhas jesuíticas ali edificadas, pelo ditador paraguayo Don Rodriguez de Francia, por ocasião da Guerra do Paraguay.

Essa muralha tinha sido edificada em pedra bruta e estendia-se por 2,5 km. Tal denominação foi alterada por iniciativa do Poder Executivo pela Câmara de Corrientes, para o nome atual de Posadas em 22/09/1879, em homenagem a Gervásio Antonio de Posadas, então diretor supremo das Províncias Unidas, que anexara esta porção do território missioneiro àquela província e ao mesmo tempo abriu seu porto. Em 30 de julho de 1884 Posadas passou a ser a capital do então território de Misiones.

O Alípio chegou ao Le Petit com o rabo entre as pernas e num mau humor à toda prova. Deve ter passado um aperto dos bons, o gajo. Devem ter sido horas em que não passaria nem uma agulha...

Enquanto os retardatários tiravam o pó da estrada, pegamos um taxi e fomos para a Avenida Costanera, onde a noite local acontece. Aportamos no simpático Al Arak, e pedimos que o mesmo taxi retornasse ao Le Petit para trazer o restante do Bonde de Asunción para uma relaxada na ribeira.

A noite estava convidativa, espetacular, e estávamos aliviados por termos novamente o grupo completo, e brindamos a isso, à viagem e ao nosso privilégio por lá estarmos, e degustando saborosíssimas cervejas Stella Artois. Comi tacos com guacamole e pimenta, e a raça pediu uma “pequena” pizza com sobreloja, que alimentou bem 4 pessoas famintas ! Explicando, a tal pizza tinha 8,5 cm de altura (ou de altitude ?), e cada um dos pedaços era encimado por um ovo frito. E a danada estava muito boa e cheirosa. Tenho que deixar aqui registrado que a cereja desse bolo foi termos sido servidos pela linda e simpática Florência.

Ou a Laura e a Florência eram lindas mesmo, ou eu já estava muito tempo fora de casa...

Depois saímos a caminhar pela orla do Rio Paraná, e o Vonei só se exibindo com sua máquina fotográfica nova e espetacular. Quando eu for grande vou querer comprar uma igualzinha.

Ainda que tenhamos demorado à beça para pegarmos o segundo taxi, chegamos todos inteiros ao hotel para dormirmos, pois o dia tinha sido pleno de intensas emoções e encheções.

E o Geraldo roncava, e roncava tanto, que mais parecia um Tobata de 1 cilindro funcionando desregulado. E para completar, como o vivente tem mais calor que balzaquiana na menopausa, ele ligou o ventilador de teto que era na verdade quase um helicóptero russo, tal o vento e o barulho que fazia. Ô, tristeza ! Ainda bem que estávamos todos muito cansados, pois estávamos num quarto quádruplo.

DÉCIMO DIA

O Bleiner e eu acordamos mais cedo e fomos tomar talvez o pior café da manhã da viagem até aquele momento. Logo depois desceram o Geraldo e o Everson, e o Bleiner foi executar uma barrada express.

Depois arrumamos nossas trouxas, finalizamos as arrumações das motos, e pouco antes de sairmos do hotel (ainda bem) me afrouxou o esterco. Ufa ! Foi brabo... resquícios da pimenta mexicana do molho do taco.

E saímos todos rumo a La Puente Internacional San Roque González de Santa Cruz, que une Posadas na Argentina a Encarnación no Paraguay, transpondo o Rio Paraná. A segunda-feira, dia 11 de maio, estava mesmo bonita, de muito bom humor e convidava a uma estrada.

Chegando à aduana argentina, o Vonei, que parece sempre encontrar anzol, enroscou por ter perdido o Permiso de Entrada, o papel com o visto argentino. Daí fui parlamentar com o funcionário aduaneiro até fazer com que ele entrasse no sistema e conferisse se o Vonei tinha ou não entrado legalmente na Argentina, e isso resolveu a questão.

Enquanto esse nó era desatado, o grupo aproveitou para fazer cambio, se hidratar e dar uma mijadinha a mais por garantia. Por fim cruzamos a bela ponte internacional e entramos em Encarnación, no Departamento de Itapúa, no sul de la República Del Paraguay.

Em Encarnación reabastecemos as motos, fizemos um reconhecimento visual do rumo a seguir, paramos no comércio local para algumas providências, e ali começou a grande odisséia do pneu traseiro da moto do Alípio. Tentando ser mais realista que o rei, o cabeça dura ficou a procurar por um tamanho de pneu que não era o especificado para a sua moto. Nessa altura o Alípio declarou que o grupo estava dando muito palpite nas coisas dele, que ele estava sendo induzido, levado a fazer coisas que não queria. Foi o bastante para que nos recolhêssemos à nossa insignificância. Ele demorou, mas acabou encontrando o tal pneu mais largo. Daí foi outra novela para trocar o pneu, pois por ser mais largo que a calha do aro, o borracheiro teve dificuldade para montá-lo, e foi preciso levar a roda noutro lugar para a conclusão da obra.

E o tempo passando, e um calor abrasador a nos cozinhar o bom humor numa localidade em que, nos tempos de inverno, a temperatura cai a zero graus. E haja água com bolinhas e sem, e sorvetes !

Encarnación está localizada no sudeste do Paraguay, é capital do Departamento de Itapúa, se localiza na margem direita do Alto Rio Paraná e faz fronteira com a Argentina. É um importante porto fluvial e um grande centro comercial de madeira, gado, couro, peles, tabaco, milho e arroz. Atualmente é a terceira cidade do país, economicamente falando, abaixo apenas de Asunción e de Ciudad Del Este. Também é um importante pólo de comércio internacional e mantém um forte vínculo com a vizinha cidade de Posadas (AR). Encarnación foi fundada em 25 de março de 1615 pelo padre jesuíta Roque González de Santa Cruz como Missão de Itapúa, e hoje tem o nome oficial de Nuestra Señora de La Encarnación de Itapúa. O padre Roque González de Santa Cruz foi o primeiro santo paraguayo.

Como o Alípio tinha já implodido o plano de vôo para esse dia, a raça resolveu se distrair um pouco para não se estressar além da conta. Everson, Bleiner e Vonei compraram capacetes escamoteáveis por R$ 120,00 cada; eu comprei um capacete infantil para o Tiba por R$ 25,00 e tratei de matar minha vontade de empanadas que já durava mais de ano e dia.

Na hora da siesta a moto do Alípio ficou pronta, só que a corrente havia ficado por demais tencionada. Isso deveria ter sido observado na hora da montagem, e o distinto motociclista disse com todas as letras que na moto dele somente o mecânico mexeria, e o comércio demoraria ainda mais de hora e meia para reabrir !

Como paciência tem limite, o Everson e o Bleiner sacaram das ferramentas e ajustaram a tensão da corrente da moto do Alípio na rua mesmo, e sem tomarem conhecimento dos reclamos do homem.

Depois de muito custo seguimos viagem através da Ruta 1, agora já preocupados com a possibilidade quase certa de que a noite nos pegasse no meio do caminho.

De repente, num acesso de pura revolta, o capacete velho do Everson se desvencilhou das amarras que o prendiam à garupa da moto, e resolveu se aventurar mata adentro ao lado da rodovia. Coisas de capacete com dor de cotovelo por ter sido preterido.

Paramos para reabastecimento em San Juan Bautista e ali tivemos mostras da receptividade, da educação, do carinho e da civilidade do povo paraguayo. Conversamos com o Luis Aguilera, dono daquela estación de servicios, e ele não deixou por menos, nos fez um excelente mapa a mão livre do que encontraríamos na chegada a Asunción, e de como deveríamos proceder para chegarmos ao Hotel Império, indicado por ele por ser de fácil acesso, seguro e barato. Para completar, ligou ao tal hotel, confirmou os preços e fez nossas reservas. O Luis foi mesmo espetacular ! Ponto para os paraguayos.

O Luis Aguilera também nos sugeriu que, após passarmos por Quiinde, quando chegássemos a Paraguary, entrássemos à esquerda no Aceso Sur, pois trafegaríamos por uma estrada melhor, com menor trânsito e chegaríamos a Asunción 30 km antes.

O interior do Paraguay apresenta atualmente agricultura e pecuária consistentes, estradas excelentes e vegetação sempre verde e sem poluição. Nota-se, principalmente ao longo da Ruta 1, muitas obras de infra-estrutura na rodovia, que corta longos trechos de planície.

Um fato que me pareceu importante e que me chamou muito a atenção, foi que as reformas nas rodovias paraguayas são verdadeiras reconstruções, com nova terraplanagem de lastro e repavimentação integral com capa asfáltica de espessura para fazer corar as Odebrechts, Camargo Correias, e OASs da vida. Senti novamente vergonha de ser também brasileiro. E isso num país que aqui é considerado um galinheiro...

Após Quiinde tivemos que parar no acostamento da Ruta 1 para admirarmos e fotografarmos um por-do-sol de cinema, com efeitos mais que especiais do Papai do Céu. Deslumbrante.

Paramos em Paraguary, e foi nessa hora que o manto da noite cobriu o céu, e como tenho certa cegueira noturna, tive que redobrar a atenção na pilotagem, e que se lixasse o cansaço. E o Alípio teve a bárbara coragem de me dizer que nos havíamos atrasado por termos ficado de conversa fiada com o Luis Aguilera no posto em San Juan Bautista ! Pode ?

Prosseguimos pela Ruta 1, e na noite adentrávamos no âmago do Paraguay, o que trazia em seu bojo uma certa incerteza, uma interrogação excitante e deve ter motivado a todos dando mais tempero à nossa viagem.

Após Yaguarón, cerca de 30 km após Paraguary, estava a entrada à esquerda para o Aceso Sur. E a partir dali fomos atravessando toda a periferia sul de Asunción. Foi tudo muito tranqüilo e instigante. E fomos brindados com uma noite muito linda, com a abóbada celeste limpa e mais estrelada que farda de ditador latino americano em dia de parada nacional.

Quem diz que o Paraguay é um lixo, que é perigoso, que assusta, não sabe o que diz. E é curioso se notar que a maioria das pessoas que afirma esses disparates, nunca entraram naquele país.

Quando cai a noite no Paraguay, a aparência do país continua leve, tranqüila, ainda que na escuridão os ratos saiam de suas tocas, mas isso acontece em toda e qualquer parte do mundo.

Entrando em Asunción seguimos o mapa do Luis Aguilera e chegamos sem problemas ao tal Hotel Império, situado nas proximidades do Terminal Rodoviário. A bem da verdade, era um hotel bem meia-boca, mas ficamos decentemente instalados, bem localizados e em segurança. Tratava-se em última análise, de um pulgueiro bem arrumadinho. E só.

Na verdade a rede hoteleira de Asunción é toda deficiente e cara, e em assim sendo, estávamos no lucro.

Como queria conhecer um pouco da cidade, como não tinha a menor pressa de voltar para casa, e procurando evitar que a coisa azedasse mais, do alto de sua privilegiada sabedoria o Bleiner convidou o Alípio para permanecerem por um dia mais na capital paraguaya, e o Vonei resolveu ficar também. Assim, no dia seguinte o Bonde de Asunción estaria partido ao meio, pois o Everson e eu nos havíamos comprometido em ir com o Geraldo, e além disso o Everson teria compromissos agendados em Jataí (GO).

Mal tiramos a poeira da estrada e fui com o Bleiner e o Everson para o centro da cidade conhecer a Asunción noturna. Fomos ao Shopping Center Mariscal López e lá jantamos um rango japonês bem interessante. Depois demos umas voltas pelas cercanias, tiramos fotos, tomei um bom sorvete e voltamos ao hotel.

Da recepção do Hotel Império enviei um sinal de fumaça para meu povo, fiz anotações e fui me deitar, pois o dia seguinte prenunciava ser mais arejado e com muita adrenalina. Tomara !

Por algum tempo Asunción foi uma importante cidade para a administração colonial espanhola, pois facilitava a navegação para as embarcações da terra de Cervantes, que cruzavam o Atlântico, subiam o Rio da Prata e entravam no Rio Paraguay. Utilizavam o porto de Asunción que crescia rápido como uma porta para o resto do coração da América do Sul. Asunción se desenvolveu ao longo da ribeira leste do rio, as terras férteis deram apoio ao rápido crescimento populacional. Imóveis do período colonial atestam a prosperidade da cidade, e o espanhol aproveitou bem esse desenvolvimento, como se estivesse em férias num resort. Desde então a cidade passou por muitas mudanças.

Isolada e com habitantes demais, como todo o Paraguay, Asunción fechou suas fronteiras para visitantes. Guerras, convulsões políticas e ditaduras transformaram o país e sua capital no destino turístico menos desejável das 3 Américas. Nas décadas mais recentes esse panorama tem se alterado para melhor, e Asunción tem voltado a receber turistas que buscam um destino de clima tropical, e para isso contribui a grande simpatia e receptividade dos azuceños e o fato de a cidade ser a porta de entrada para o Gran Chaco.

DÉCIMO PRIMEIRO DIA

Aproveitando a previsão de bom tempo, apesar da chuva da madrugada e de termos acordado um pouco mais tarde que o previsto, tomamos rapidamente um arremedo de café da manhã, arrumamos as bagagens, nos despedimos da raça ficante desejando-lhes uma boa estada e um bom retorno, e Everson, Geraldo e eu partimos de Asunción na terça-feira, dia 12 de maio.

Saímos da cidade cortando a mesma periferia sul, através da qual havíamos entrado, e em Yapacaraí, cidade próxima à capital paraguaya, entramos na Ruta 2 e seguimos no sentido de Coronel Olviedo.

A periferia de Asunción é bem organizada, com visual aceitável, e mais limpa, mais saudável, mais habitável e melhor do que muitas que conheci no Brasil e fora dele, e me abstenho de citar exemplos para não ferir suscetibilidades.

Nesse trajeto de saída passamos por uma pequena serra muito linda, com formações rochosas interessantes e vegetação soberba.

O Paraguay é um país bonito, agradável e conta com um povo bom, ordeiro e gentil. E o país e o povo se tornam melhores ainda na medida em que se consegue entender sua idiossincrasia de total simplicidade, sem qualquer pompa ou circunstância.

Passamos por Caacupé, a capital espiritual do país, que tem o dia 08 de dezembro como seu dia mais festivo, em que é comemorado o dia de La Virgen de Caacupé, tida na região como grande milagreira.

A Ruta 2 atravessa uma linda região, muito verde e com relevo manso, que descansa a visão do viajante. E a viagem estava excelente, com tempo muito bom e com outra pegada, sem ranço algum.

Fizemos uma parada alimentar em Mariscal Estigarríbia, local conhecido como Campo 9, e almoçamos num restaurante simples e muito agradável chamado Germânia. Pedimos o prato popular que era servido aos trabalhadores locais, e não nos arrependemos.

Foi interessante notar que com a gasolina paraguaya, pura e sem a adição de álcool ou de aditivos, minha moto baixou a média de consumo para 24 km/l.

Por todo o Paraguay eu estava notando uma profusão de bandeiras nacionais, além de faixas e rosáceas azuis, brancas e vermelhas, as cores nacionais da terra, e somente quando passamos por Caaguazú, cidade que comemorava seus 164 anos de emancipação política, é que atinei que estávamos visitando aquele país bem no meio de sua Semana da Pátria, pois o Paraguay tem sua data máxima nacional em 15 de maio, e em 2009 comemorou 198 anos de independência. Por isso que todo o país estava engalanado e orgulhoso.

Em 1811 o Dr. José Gaspar Garcia Rodríguez de Francia proclamou a independência do Paraguay, rompendo os laços coloniais que o prendiam à Espanha, e assim recusou-se a fazer parte da Confederação das Províncias Unidas liderada por Buenos Aires. Até 1852 sua independência foi contestada pela Argentina, que almejava incorporá-lo a um grande conjunto correspondente ao antigo Vice-Reino do Prata.

Nesse quadro inseguro para os destinos do Paraguay como estado autônomo, a diplomacia brasileira procurou cultivar os melhores laços de amizade e as melhores relações com o governo de Asunción. Assim, depois de proclamar a sua independência em 1872, o Brasil tratou de reconhecer logo a independência do Paraguay, cuja causa passou a defender junto aos outros países, pois era de interesse do Brasil a existência de um Paraguay independente e livre, bem como a livre navegação no Rio Paraguai, então única via de acesso à Província brasileira de Mato Grosso.

Quem como eu conheça o Paraguaymais de 35 anos, e que tenha conhecido o país de 4 ou 5 anos atrás, se surpreenderia com o salto em qualidade de forma geral protagonizado pelo país, como se de súbito a terra de Roa Bastos, de Solano López e da guarânia tivesse acordado de um coma, de um torpor ancestral.

Deu-me muita satisfação e prazer poder vivenciar, ainda que só de passagem, essa rápida e eficiente evolução, e fiquei feliz em ver que o Paraguay está mais bem disposto, mais corado, mais risonho, mais feliz e com sede de viver. Até remoçou. Fiquei orgulhoso porque, de forma não convencional, fui paraguayo por cerca de 1 ano nos tempos sombrios da ditadura brasileira, que se arrastou de 1964 até 1985. Mas isso já é uma outra história.

Na minha visão o Paraguay é um país onde seu cidadão tem total e ampla liberdade na verdadeira acepção da palavra, é um país onde as coisas são possíveis.

Nesta viagem, o Paraguay terminou para nós em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil, que cresceu muito e se tornou uma moça bonita, grande e com economia pujante.

Paramos na muvuca junto à ponte fronteiriça que é a Meca dos sacoleiros, na Zona Franca de Comércio de Ciudad del Este para que o Everson comprasse um pente de memória para seu note book e um roteador. Dada a oportunidade, o Geraldo aproveitou para comprar pneu para sua moto, e eu comprei um capacete escamoteável bacana e uma nova web cam. Juntando-se a isso as muambas que eu já havia comprado no início desta viagem, creio que já daria um bom enquadramentozinho no Código...

A história de Ciudad del Este se confunde com a história da Ponte da Amizade, via que liga o Brasil ao Paraguay na Tríplice Fronteira. O acordo para a construção da estrutura foi assinado pelos governos dos dois países em 1956. Com o avanço dos trabalhos de uma comissão especial que estudava a melhor localização para construir a ponte, o governo paraguayo determinou uma série de sobrevôos de reconhecimento na região. Do levantamento topográfico surgiu a determinação do ex-ditador Alfredo Stroessener de construir uma nova cidade na região próxima de onde seria a cabeceira da fronteira no lado paraguayo, na Ponte da Amizade.

No dia 02 de fevereiro de 1957 nascia Puerto Presidente Stroessener, cujo primeiro nome foi Puerto Flor de Lis e que passou a ser denominada Cuidad del Este em 1989, com a queda do ex-ditador. A cerimônia de criação da nova cidade reuniu cerca de 60 pessoas, incluindo o embaixador brasileiro João Luiz de Guimarães Gomes, o núncio apostólico do Papa Pio XII, o Monsenhor Luiz Púnzolo. O grupo de convidados chegou até o local após desembarcar em Puerto Presidente Franco, vizinha de Ciudad del Este. O ato para a fundação de uma nova cidade é datado de 28 de janeiro de 1957 e leva o número 24.634 do Ministério do Interior do Paraguay.

No dia 27 de fevereiro, pelo Decreto nº 25.209/57, foi criada a comissão provisória de planejamento da cidade. Em 23 de julho do mesmo ano foi promulgado o Decreto nº 28.882/57 aprovando o plano de trabalho a ser cumprido pela comissão, que incluía a construção de um aeroporto, avenidas centrais, hotel, lago artificial, e rodovias de acesso aos saltos de Monday e Acaray.

A Ponte da Amizade foi inaugurada oficialmente em 27 de março de 1965. Hoje Ciudad del Este é a capital do Departamento de Alto Paraná, e a segunda cidade mais importante do país. Ciudad del Este, assim como a vizinha Foz do Iguaçu, experimentou no começo da década de 70, um crescimento desenfreado com a construção da Itaipu Binacional, a maior usina hidroelétrica do mundo. A cidade é um mosaico de gente, cores e histórias. É a terceira maior Zona Franca de Comércio do mundo, depois de Miami e Hong Kong.

Atravessamos então a Ponte da Amizade cruzando por sobre o Rio Paraná, e fomos nos instalar no Suíça Hotel e Resort, o mesmo hotel 4 estrelas em que o Everson e o Geraldo haviam se hospedado por ocasião do Cataratas Moto Fest. Um luxo, muito bom.

Após nos instalarmos e relaxarmos um pouco, demos uma internetada básica e fomos jantar no próprio hotel, em cujo restaurante comemos muito bem. Para fazer a digestão fui telefonar à Fatiminha. Depois fiz anotações e um pré-balanço da viagem, deixei minha bagagem no jeito e fui descansar.

DÉCIMO SEGUNDO DIA

No dia 13 de maio, quarta-feira, logo cedo o Everson ligou seu lap top e foi trabalhar, o Geraldo foi trocar o pneu dianteiro de sua moto e eu fui conferir nossa rota, já prevendo que no meio do caminho o Everson iria seguir no sentido de Presidente Prudente (SP) e Jataí (GO).

Como o dia amanheceu de bom humor, previ que seria mais um agradável trecho de viagem, mas eu já estava com saudades e querendo voltar para o Paraguay e Argentina.

Depois do nosso desjejum o tempo começou a mudar, e a previsão passou a ser de chuvas, infelizmente. E choveu forte, fazendo com que se formasse uma fina camada de lama avermelhada por sobre o asfalto da cidade.

Saímos de Foz do Iguaçu com a chuva já bem fraca, entramos na Rodovia BR-277 que nos levou a Cascavel. Lá entramos na Rodovia BR-369 e seguimos até Campo Mourão (PR), cidade que praticamente contornamos por fora num semi-círculo pela Rodovia PR-158, e logo depois entramos na Rodovia PR-317 que nos levou a Maringá (PR).

Estávamos tentando fazer uma viagem meio que de recuperação, pois por conta da troca do pneu da moto do Geraldo, acabamos por sair de Foz do Iguaçu às 10 h.

Entramos em Maringá e ao atravessarmos a cidade de fio a pavio através da Av. Colombo, fiquei boquiaberto com o tamanho do “povoado”, com seu fervilhamento e sua beleza, com suas largas e longas avenidas.

Na saída para Arapongas (PR) paramos junto a um trevo com rotatória para nos despedirmos do Everson que seguiria a partir dali outro rumo, e ao pararmos no acostamento eu me esqueci de que minha moto é ainda muito criança e não aprendeu ainda a ficar de pé sozinha sem o auxílio do descanso lateral, e a bichinha deitou por sobre meu pé. Por sorte a mala lateral da moto e a rigidez da bota seguraram o rojão.

Após esse leve incidente, nos despedimos do Everson desejando-lhe uma viagem tranqüila e um bom trabalho na cobertura do evento. E seguimos na direção de Ourinhos (SP) através das Rodovias BR-376, BR-390, BR-369 e PR-444. Foi um tanto triste ver o bonde ficando cada vez menor.

Notei que é impressionante o percentual de terras agricultadas no Estado do Paraná. Sem medo de errar, afirmo que, no mínimo, 90 % das terras rurais que não estão sob regime especial, são produtivas.

A contra-partida amarga foi notar que em todo Estado do Paraná os pedágios são caríssimos, abusivos, e as estradas são, quase todas, muito estreitas, onduladas e mal conservadas. Considerando o assalto dos valores dos pedágios, essas estradas são uma merda e afrontam os direitos do povo. Por conta isso, creio que eu só volte a cruzar esses lados do Paraná em caso de necessidade, pois não me agradou nenhum pouco ser roubado pelas concessionárias dos serviços com a anuência e a conivência do governo do estado, para rodar com uma moto leve que não danifica em nada o leito carroçável das estradas. É um abuso oficial.

Em Arapongas (PR) chegou a hora do lusco-fusco, quando todos os gatos passam a nos parecer pardos, e em Londrina (PR) a noite nos espreitava e subiu em nossas garupas no meio da segunda curva. E que noite ! Linda, céu límpido, maravilhoso.

Como passávamos por um trecho de serra com muitas curvas e com altos e baixos, demoramos mais que o previsto, e ao pararmos para reabastecimento em Andirá (PR), alguma coisa indescritível nos chamou a atenção para a singeleza da cidade, como um convite ou um aviso. E demoramos menos de 27 segundos para decidirmos pernoitar ali, até porque estávamos a apenas 40 km de Ourinhos.

Em Andirá havia dois hotéis, um bem simples e outro bem melhor, o Ingá, no qual nos instalamos, bem defronte à Praça da Matriz, cuja denominação oficial é Praça Sant’ana. E por ser um hotel bem razoável, achamos que o valor de US $ 11,00 por pessoa em quarto duplo, estava mais do que bom.

Após um banho reparador para tirar o pó vermelho da alma, fomos jantar no Restaurante Missô, simples, aconchegante e com comida honesta e saborosíssima. Tudo no ponto, cerveja bem gelada e comida quentinha e bem temperada. E os proprietários eram de gentileza e simpatia impares. Compramos ali duas garrafas de vinho de catuaba Virtude, e o dono do Missô foi nos levar no hotel.

Mandei torpedos para o Everson e para o Bleiner, e fomos dormir cansados e felizes por termos acertado na mosca em pernoitarmos em Andirá. A outra metade do Bonde de Asunción iria sair nesse dia com destino a Pedro Juan Caballero (Py) e Guairá (MS). Acreditei que tivessem mantido esse plano de vôo.

Andirá teve como início de sua fundação o ano de 1927, quando aconteceu o prolongamento da ferrovia da então Rede Viação São Paulo-Paraná. Construiu-se naquela localidade uma estação com o nome de Ingá, que é o nome de uma fruta silvestre abundante na região, nas terras de Bráulio Barbosa Ferraz. O pioneiro, na ânsia de prosperar com o progresso advindo dos trilhos de aço, dividiu 5 alqueires em lotes pondo-os à venda e dando início ao núcleo urbano.

Em 1928 chegaram os primeiros colonizadores do povoado que ia se formando ao redor da pequena estação de trem. Segundo registros históricos, foram as famílias Ribeiro da Silva, Messias da Silva, Vaz e Possagnolo as que primeiro chegaram à futura Andirá. Dona Maria Cearense foi a primeira parteira do povoado. Vieram também as famílias Bonacin, Zanoli, Cavenaghi, Simoni, Zafanelli e Barbosa Ferraz, e muitas outras foram chegando depois. Através do Decreto-Lei Estadual nº 347 de 30 de março de 1935, o povoado de Ingá foi elevado à categoria de Vila, com a criação do Distrito Jurídico e a instalação do Cartório, pertencente ao município de Cambará (PR).

O evento histórico e inesquecível para a população local foi a emancipação política de Ingá, com desmembramento da Comarca de Cambará, através do Decreto-Lei nº 199 de 31 de dezembro de 1943, assinado pelo interventor Manoel Ribas. Nascia então o município com o nome de Andirá, que teve como seu primeiro prefeito municipal o seu fundador, Sr. Bráulio Barbosa Ferraz, cuja administração foi exercida no período de 14 de janeiro a 15 de dezembro de 1944. Do pioneirismo da família Barbosa Ferraz constam a fundação de várias cidades como Cambará, Cornélio Procópio, Leópolis, Sertaneja, Rancho Alegre, Ivaiporã, Jardim Alegre e São João do Ivaí.

DÉCIMO TERCEIRO E DERRADEIRO DIA

Logo cedo fomos acordados pelo canto dos bem-te-vis, sanhaços e coleirinhas, o que era prenúncio de que a quinta-feira, dia 14 de maio, seria mais um dia estupendo, ainda mais considerando que o tempo estava muito bom, com o céu lindo e sorridente.

Via torpedo o Bleiner me informou que o plano de vôo deles tinha sido totalmente alterado. Estavam ainda em Foz do Iguaçu, pois havia quebrado a embreagem da moto do Alípio... mas eles iriam a Pedro Juan Caballero ?

Tomamos um café da manhã simples, mas razoável e fomos arrumar pela derradeira vez nessa viagem as nossas bagagens, e ao encilharmos as lambretas havia um pequeno contratempo: o pneu traseiro da moto do Geraldo estava furado, murchinho e arriado.

O Geraldo fez uso de um tyre-pando melecoso sem muito sucesso, mas foi o suficiente para que ele levasse rodando a moto até o borracheiro do posto de entrada da cidade, onde foi muito bem atendido.

Enquanto eu esperava, fechei nossa conta de hotel, fotografei a Praça Sant’ana e fiz um breve reconhecimento das circunvizinhanças da praça.

Depois que o Geraldo retornou com o pneu arrumado, em 10 minutos já estávamos rodando pela Rodovia BR-369 que nos levou até a divisa entre os estados do Paraná e de São Paulo, onde seguimos pelas Rodovias SP-327 e SP-225, ambas muito mal conservadas, péssimas, terríveis.

Mas pouco depois entramos na Rodovia Castello Branco (SP-280), essa sim em excelente estado de conservação. E o melhor de tudo é que nas rodovias estaduais de São Paulo as motos são isentas de tarifas de pedágio.

Para fugirmos do enrosco da travessia do norte da cidade de São Paulo pela Avenida Marginal do Rio Tietê, tencionávamos entrar à esquerda em Itu (SP) passando por Itupeva (SP), e em Campinas (SP) entrarmos na Rodovia D. Pedro I (SP-065). Em Atibaia (SP) eu entraria na Rodovia Fernão Dias (BR-381) no sentido de Guarulhos (SP) e o Geraldo seguiria até Jacarei (SP) onde entraria na Rodovia Presidente Dutra (BR-116).

Porém, como esse nosso trecho estava rendendo muito bem, resolvemos encarar a travessia da Zona Norte da capital de São Paulo, pois chegamos a ela em horário favorável.

Atravessamos todo o pedaço de mau caminho sem grandes congestionamentos, entramos no complexo das Rodovias Ayrton Senna e Carvalho Pinto (SP-070), e no primeiro posto de combustíveis do trecho, em Itaquaquecetuba (SP), paramos para nos despedirmos um do outro com direito a foto para registro, foto essa que o Geraldo depois perdeu.

De lá o Geraldo seguiu para Taubaté (SP) onde entrou na Rodovia Presidente Dutra (BR-116) indo até Nova Iguaçu (RJ), onde reside. Eu retornei a Guarulhos, chegando ao Parque Cecap e em casa com um sorriso de orelha a orelha pendurado na cara.

Segundo me relatou depois o Bleiner, eles permaneceram no dia 12 de maio em Asunción, no dia 13 saíram pela manhã e pegaram uma pista onde havia chovido um pouco antes. O Alípio partiu na frente de todos (sempre ele), e de repente lá estava ele de pé na estrada e a moto caída no chão. Segundo ele a moto escorregou e caiu a 120 km/h, mas felizmente nada de sério aconteceu, apena um leve arranhão no joelho, e na moto quebrou o pisca do lado esquerdo. Nem a roupa sujou, ou seja, deve ter freado, escorregado e caído com a moto já bem devagar.

Com muito custo fizeram a moto pegar, pois virar o arranque estava difícil. Chegaram à fronteira bem na hora da muvuca da ponte, e no meio dela a embreagem da moto do Alípio foi pro saco, e ele ficou duas horas na ponte esperando solução. Deixaram a moto numa oficina em Foz do Iguaçu, que terminou o conserto somente no meio do dia seguinte, um dia chuvoso, e decidiram então não viajar. Saíram de Foz do Iguaçu no dia 15 de maio depois do almoço.

Na estrada a nova embreagem foi se ajustando e tiveram que parar umas 5 vezes para os devidos ajustes, e por isso chegaram apenas até Maringá. No dia seguinte o Bleiner deu uma dura no Alípio dizendo que só sairia de Maringá depois que o Alípio levasse sua moto na concessionária Yamaha local para uma checagem competente. Então o Vonei rumou para Presidente Prudente, e o Bleiner e o Alípio foram para São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Antes de o Bleiner e o Alípio chegarem em casa houveram outros qüiproquós, porém façamos de conta que eu não soube.

Quero aqui agradecer a todos os companheiros de cada trecho dessa viagem, aos amigos que me recepcionaram em suas cidades e que me hospedaram, aos nossos anjos da guarda pela companhia e pela competência, e a Deus por nos permitir.

Beijo em todos.

Marcão, em 03 de junho de 2.009.

 


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