EXPEDIÇÃO CIN ROTA DOS LIVROS PORTUGAL/MOÇAMBIQUE

Entre 27 de Julho e 30 de Setembro de 2002, cinco aventureiros portugueses lançaram-se numa viagem de moto que ligou Portugal a Moçambique. Para além da aventura, o objectivo foi dar visibilidade ao altruísmo da odisseia – envio de livros escolares para escolas do norte da antiga colónia portuguesa. Para isso, a presença em permanência da estação de televisão SIC, através da jornalista Teresa Conceição e do repórter de imagem João Duarte, foi extremamente decisiva. Estes “penduras” foram conduzidos pelos três pilotos que levaram as motos modelo GS da marca BMW, Bruno Gouveia (R 850 GS), João Menezes (R 1150 Adventure) e António Braz (R 1100 GS)
Este é um mini-amostra, apenas para vos dar uma ideia do que se passou.
Há a referir que o nosso desejo era ultrapassar Portugal, Espanha e França – os três países da Europa incluídos no trajecto – o mais rapidamente possível, pelo que o percurso foi trilhado em auto-estradas e via rápidas.

Chegados à cidade de Toulon em França, após 16 horas em condução directa, seguir-se-iam 22 horas de mar para atravessar o Mediterrâneo até Tunis, a capital da Tunísia. Aqui, sente-se a primeira vaga de mudança, que começa com o louco trânsito árabe, onde se buzina por tudo e por nada. Não é que queiram andar para a frente, mas apenas para informar «cuidado, eu estou aqui».
Da Tunísia assinala-se a cidade de Kairouan, a quarta cidade santa dos muçulmanos, logo a seguir a Meca, Medinah e Jerusalém. Muçulmano que a visita sete vezes, estyá desobrigado da ida a Meca.

A vila de Matmata tornou-se famosa pela realização de uma das películas “Guerra das Estrelas” de George Lucas. No local do filme, ainda hoje permanecem adereços, aproveitados pelo hotel que se lhe seguiu, pese embora as fraquíssimas condições para tal.
A Líbia foi o quinto país a ser percorrido. O trânsito é de loucos, mas a gasolina em 2002 era mais de 30 vezes mais barata que uma cerveja sem álcool.
Apesar de não ser um país turístico, a Líbia possui duas grandes atracções mundiais: as ruínas romanas de Leptis Magna, que nos fazem sentir o peso da história da humanidade pela sua magnificência, e o deserto e os oásis do Saara, na zona dos lagos de Tarquiba, onde as águas são salgadas e o nível delas não desce, mesmo nos picos de temperaturas na ordem dos 50 graus.
Entrar no Egipto foi como que uma lufada de ar fresco na libertação da nossa mentalidade. Os egípcios conhecem largamente o turismo, e como tal, já não nos sentíamos tão extraterrestres.
Chegámos a Alexandria com a noite avançada e deparámo-nos com um povo que não dorme cedo: pelas 5 horas da manhã, as esplanadas estão cheias de famílias, inclusive com crianças junto, bebendo chá e fumando o social cachimbo de água.
A mega-cidade do Cairo, com os seus quase 20 milhões de habitantes - a maior de África, recebeu o grupo de aventureiros e mostrou as famosas pirâmides de Gize.

A passagem pelas pirâmides é um marco natural da viagem, que a enriqueceu esplendorosamente. Uma imponência de monumentos, mesmo à beira do Cairo. Aliás, a cidade cresceu tanto que praticamente as tocou. As imagens oficiais é que as mostram isoladas.

A passagem pelo Cairo Tower, uma torre panorâmica com 178 metros, permite ter uma ampla visão da cidade rasgada pelas águas do Nilo.
Do Cairo seguiu-se o Sinai com passagem pelo túnel do Canal do Suez. O Sinai é o local onde Moisés recebeu os “10 Mandamentos”.
No dia seguinte haveríamos de entrar na Jordânia por Aqaba.

A passagem pelo deserto de Wadi Rum, um majestoso local dominado pelos beduínos jordanos, onde a areia de coloração avermelhada se mistura com enormes maciços rochosos com a mesma tonalidade.
 
A passagem pelas ruínas bizantinas de Petra, cenário do filme “Os Salteadores da Arca Perdida”, denotam um fantástico e inusitado trabalho simultâneo de arquitectura e escultura.
A paragem no mar Morto é também um marco desta expedição.
Seguiu-se a Arábia Saudita, um país terrivelmente fechado para não muçulmanos. Altamente controlados pela polícia religiosa, lá chegámos ao Iémen, sempre escoltados, e seguindo um trajecto rodoviário definido pelas autoridades sauditas, tendo apanhado mais de 50 graus de temperatura.
Ainda em território muçulmano, o Iémen é diferente de todos os outros países passados. É montanhoso, verde e arejado, enquanto que para trás tínhamos planícies, desérticas e quentes.
Pelas características geográficas, e pelo tribalismo do país, fomos da fronteira à capital do Iémen, a cidade de Sanaa, com escolta. Havia que prevenir, pois nos três anos anteriores mais de 300 raptos tinham acontecido.
Este é um país que choca verdadeiramente quem não tem informação prévia. Os homens parecem viver na Idade Média, com indumentárias sujas e maltrapilhas.

Andam sempre armados. Todos têm uma “jambarya” – um popular punhal usado até por crianças. Vulgaríssimo é encontrar homens passeando-se de metralhadoras russas “Kalashnikov” e até mesmo jovens adolescentes.
Apesar de ser um dos mais pobres do planeta, o Iémen é um país que oferece uma riqueza histórica e arquitectónica. Uma característica indelével do país é o uso do “qat” – a sua droga oficial. Ao final da manhã, em qualquer local do Iémen, desenvolve-se o negócio. O “qat” é uma planta com efeitos alucinogénicos moderados.

Uma a uma, vão colocando nas bochechas e chupando-as, durante horas, as pequenas folhas da planta.
Posteriormente, de avião atravessaríamos o mar Vermelho rumo a uma Etiópia que nos receberia de «braços fechados». Exigiam-nos uma caução de 10 mil dólares para tirarmos as motos do aeroporto. Ao fim de 3 dias tínhamos o problema resolvido e iniciamos a condução para sul, num país que sofria a norte uma grave seca, com a correspondente falta de água. Do que vi da Etiópia, nada vi de pobreza extrema, de barrigas subnutridas, nem imagens chocantes. Pelo contrário, gente que nada tendo de bens materiais assinaláveis, tinham um sorriso fantástico no rosto e estavam sempre prontos a ajudar.
Na Etiópia profunda teria lugar um encontro totalmente fora do esperado. João Duarte e Danniel conheceram-se me 1994 em Moçambique. Oito anos passados, 4 países acima e a milhares de quilómetros do ponto inicial, voltam a encontrar-se numa aldeia etíope que não era mais do que 300 metros de estrada com casotas dos dois lados.
A entrada no Quénia levou-nos a solicitar escolta para um trajecto bem pior que algumas etapas do Dakar, com areia, calhau, brita, e com um grau de perigosidade elevado, devido a assaltos e assassinatos.

O nos cruzarmos com uma das mais famosas tribos da Terra – os Masai – gerou momentos inesquecíveis, para eles e para nós. Foram dois dias para percorrer nem 600 kms, num total de mais de 27 horas de condução.
Com passagem por Nairobi apenas para um reaperto de parafusos, seguiríamos para a Tanzânia, entrado no país em 20 minutos, quando o habitual eram 4 e 5 horas esperando, nomeadamente nos países muçulmanos.
O mais que sobressai nestes países africanos é a bicharada. Afinal estivemos passando “dentro” da casa deles.
Na Tanzânia ainda passamos de fronte para o grande monte Kilimanjaro, a maior montanha africana e aí, devido a umas crateras na estrada parti um dos três apoios do motor, o que me levou a voltar à BMW de Nairobi, enquanto os meus companheiros aguardaram três dias por mim em Arusha, a primeira cidade vindo da fronteira.
Com a moto remediada voltei à Tanzânia, “apanhando” os meus colegas no hotel em Arusha, e seguimos para Dar Es Salam. A nossa intenção era entrar em Moçambique pelo norte e atravessá-lo, sempre pela costa, até à capital. Contudo, a informação de que as estradas do sul da Tanzânia e do norte de Moçambique eram péssimas, levou-nos em direcção ao pequeno Malaui, entrando posteriormente na antiga colónia portuguesa pelo distrito de Tete.
A fronteira parou autenticamente durante 30 minutos, para recebermos os cumprimentos dos representantes do governo, nas acções protocolares de boas vindas.

Até chegar a Maputo, uma noite em Tete, outra em Chimoio, duas na paradisíaca vila de Vilanculos, outras duas na praia do Tofo e uma última na cidade de Xai-Xai.
Na chegada a Maputo, com direito a escolta policial, as motos da polícia abriam caminho com as sirenes ligadas e nós íamos torneando o trânsito que parava para nos deixar passar e observar.
Ao final da tarde no Instituto Camões, a entrega de um dicionário de português aos representantes da ONG “Leigos para o Desenvolvimento”, simbolizando o altruísmo do projecto – livros escolares ofertados pela Porto Editora para escolas moçambicanas.
Com o regresso a Portugal na madrugada de 3 de Outubro, terminou a epopeia da primeira Rota dos Livros. Ficou aberta a primeira, sendo que o objectivo é existirem outras a partir de Portugal, mesmo que sem o auxílio de aventureiros que trilhem as estradas até ao destino final.

Veja mais fotos da Viagem em nossa seção “Galeria”

Texto e fotos por Bruno Gouveia

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